domingo, 18 de setembro de 2011

Saco um samba sintomático
falo afoito facas em frisson.

Não me venham com teologias quando eu
tiver batido a cabeça na quina do armário;
não me venham com filosofias quando eu
tiver dado uma topada com o dedo mínimo do pé
                 na quina da parede;
o dedo sangra, o dente dói.
Respeitem a anestesia da autopiedade!

Saco facas em frisson
falo afoito um samba sintomático.

(Marcos Cruz)

domingo, 28 de agosto de 2011

"Se o poeta falar num gato, numa flor,
(...)
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá... Que importa?
Todos os poemas são de amor!"

(Mário Quintana)

Quando eu te quis falar de amor
no meu inverno inverso
do Quintana dos infernos
emergiram remoídos estes versos:

“Tralalá, meu amor,
eu vi um gato.”

(Marcos Cruz)

sábado, 27 de agosto de 2011


Se o meu verso fosse
verso de aêdo,
eu renunciaria à metáfora;
mas, como que por medo,
submeto-me à anáfora;

poesia é flora em fogo:
verde que arde em chamas
e chagas
que se abrem em flores
de múltiplos sabores
sucumbidas pelo calor
que tudo subjuga em cinza;

cinza que cobre a terra após o incêndio
é o verso parido pela maiêutica do grafite.

(Marcos Cruz)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011


Ao pé da noite serena
a Lua derrama seu halo
sobre mar do Atlântico
tão escuro;

da praia de Itaparica,
o luar todo enternecido
diluindo-se apaixonado na água:
ele a penetra (e a atravessa até o chão;

mas, enquanto ocorre a decantação,
o fluido prateado contraria a
precipitação
fatalista: expandindo-se
feito fogos de artifício que se acendem
desde as ondas);

essa luz é volátil refletida
qual o desejo.

(Marcos Cruz)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

SAUDADE


Àquela noite enluarada
(quando, no meu peito, se fez dia)
você me poupou de sua luz dourada,
mas não me privou da flor da poesia.

(Marcos Cruz)

SOLO


Detesto a solidão
     ;

amo, vejais, ser em andorinhas
ou pardais:
na altura do céu azul em edifícios
vidraças ou metais;

eu detesto a solidão
noentanto estou só
cá no meu quarto
cá no meu canto
sob o soturno manto
de aqui dentro de mim;

(quando a vida perecer
só nos resta de legado
amor ou melancolia;

isso eu afirmo porque
a brisa ou o sol do dia
não pode ser capturado,

guardado com avareza
ou então acumulado,
se a visível natureza
colore-se em céu nublado;

a brisa é fluida e vadia
o sol é imenso e vário;
é natural que a poesia
seja um soneto ao contrário)

eu não estou só
                       - constato -
nem mesmo no silêncio do meu quarto,
e nenhuma emoção
nasce de introspecção;

todo o que digo
tudo o que sei
é nuvem e brisa e sol
e dor e trago que herdei:
a flor dos olhos sonâmbulos
entorpecidos pela claridade
da certeza
que em minha testa brota;

a miragem do concreto que
cerra minha carne, mas
declina ante meu gemido;

a dor em minhas costas
subjugadas pelo peso
do tempo que exaure meus ossos,
presente do antes e do depois;

o que julgo meu sopro
desejo ou idéia, pois,
(que supostamente nasce)
revela-se, descartando o enigma,
deliberação d'uma assembléia
composta por vozes milhares
sob o semblante solitário
de minha face.

(Marcos Cruz)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011


Eu abro meus ouvidos no silêncio
buscando um canto de sereia
que seduza a náusea do indistinto.

Eu fecho os olhos do frio
que em minha sombra sopra
a busca pela cor da distância
do que não tem nome.

Escorrem lágrimas do meu peito
por não reconhecer o feito, cuja
cadeia selada da indignidade
mata.

Observando, sob a modorra do retrocesso,
a dolorosa morte de inventivos processos
durmo o sono do dia a dia
e, se desperto, canso
e volto manso para a covardia de não querer.

(Marcos Cruz)