domingo, 14 de agosto de 2011


Leio no silêncio no meu quarto
como medita um monge

que junta as palmas das mãos
em frente o peito, na altura do coração:
na mesma altura que o livro repousa
sob meus pensamentos;
os olhos curvados num ângulo
de 45°
como os do monge na direção
do chão, direção
que busca o vazio
gashô.

Divirjo, pois, do monge
(mesmo que busquemos mesmo o
nirvana)
porque o meu zazen
não é silêncio:
encontra, em contrário,
gritos num plenário
da multidão de vozes
circunscritas no espaço do tempo
pelo qual minha visão é levada
ao encontro do coro polifônico
de em mim.

(Marcos Cruz)
Agonizo em peitos insalubres,
é a vida arquitetada em rede
moinho que não cessa.

Eu planto em terra infértil
na esperança de mil orquídeas;
enquanto elas não nascem
teço.

(Marcos Cruz)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Girassóis floreiam em mim
do seu sorriso;


luzes voláteis interpenetram
               os meus pulmões
sufocado pela concentração
de um êxtase que me revela
o quanto é preciso destruir da
           imagem de quem amo
                 para que lhe ame.

(Marcos Cruz)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O jeito com o qual amo
não provoca nenhuma surpresa;
dance comigo uma música bem calma,
caso desejes me amar.

A beleza lúcida dos teus lábios rubros
pode lapidar minha pulsão empedernida,
na mesma medida da discrição dos pássaros
quando despertam a manhã com a garganta.

Desejaria voar contigo e passarear
um amor de calopsita,
mas no alto dos prédios da cidade
brotam relvas teimosas pela vida.

A luz da paixão idealizada
cega os meus olhos descrentes,
Cobilândia de outrora!
                                 lugar
onde não mais vivo, mas - se não vivo -
é vivo dentro de mim

como é viva a lourinha que amei
na terceira série
(embora esteja ela morta
para dar lugar à supervisora do supermercado).

- Desejo calabresa; não demore que ela não tarda.
- Sim, senhor.


(Marcos Cruz)

domingo, 31 de julho de 2011

Não te mostrarei meus
medos
enquanto os meus
enredos
forem cantar
contar
       calar
cantar contar o número
dolorido e cabal
de lírios do jardim
colorido
que murcharam sem
carnaval.

(Marcos Cruz)

domingo, 24 de julho de 2011

Forço e faço fogo fulguroso, é fagulha
notória nata natural; mas natimorta
é a poesia paternal patética; pois o poeta
canta comovido, enquanto a corsa
balbucia bucolismos em sua busca. Se o braço
rema rigorosamente pelo regaço; restringe, pois,
a água espessa, o amor que se abrasa. Arrefeço.

(Marcos Cruz)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

NESSE JULHO

"O trabalho era atrapalhado, às vezes desazo, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo." (Bentinho/ Machado de Assis)

A minha vida não tem mais cores.
Eu as tive, mas perdi do momento
de sua partida.

Se me vejo
me retrato em preto e branco;
se não velo
a imagem de mim é todo escuridão.

Eu não tenho mais cores
(flores, amores; nem rimas
porque, sem dores, é única
a dor).

Vai-te, enfim, acácia de Angola;
que o fardo subjuga o burro
e já já me nauseia sua alma multicor. 


(Marcos Cruz)