sábado, 18 de junho de 2011

TRÉPLICA

Eu não quis ser o seu
dominador, nem seu amor
nem nada mais;

meu crânio comprimido
nunca te pediu
confirmações;
meu peito esbaforido
nunca te pediu
promessas;

confesso que tive em ti
uma dona
e me agradaria ser cuidado
tão somente um tão pouco,

ter sido seu
bichinho de estimação.

(Marcos Cruz)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

RÉPLICA DE IAIÁ



O
que falo me contenta?
O
que falo me supre?
O
que falo me faz plena?
Pergunto do
que falo
porque sabes bem que
eu nunca te fiz
promessas.

Sou a mulher que não é musa
nem nunca seduziu ninguém;
só procuro por outra carne
por ser de carne
e, enquanto a carne se sacia na carne,
também eu me sacio.

Eu não faço juras de amor
porque não amo ninguém
caso contrário o faria;
quanto a tu, não digas me amar:
se me amas, venha sofrer as regras ou parir
em meu lugar!
Quando isso for possível
aí eu acreditarei em amor...

O teu espanto
é o teu machismo,
insensato protótipo de reprodutor,
- já que, às vezes, mal é capaz de
prover a própria prole –
porque nunca esperas
ser devorado pela própria presa.

Eis que não sou presa,
nem me prendo: sou
arara que alça vôo sem amarras;
peixe que mergulha em mar ressaqueado;
paca que se embrenha em mato denso;

arara peixe paca
peixe paca arara
paca arara peixe

julgas-te pescador?
julgas-te caçador?
julgas-te passarinheiro?
se o fosses, eu de minha vez
seria a tempestade.

(Marcos Cruz)

Tinha um gato gatuno
que vivia na casa de Iaiá

e de seu banho se lambia todo
como eu lambia lentamente
o corpo moço de Iaiá

e no canto da sala adormecia
contorcido
como eu me contorcia
noite a dentro noite fria
pelas pernas de Iaiá

e seu miado faceiro
véspera do afago lisonjeiro
que o corpo todo alisa na pele alheia
como os nudos afagos que eram de Iaiá.

Mas Iaiá é uma rata
tal qual cadela no cio
que não ama um homem só.

(Marcos Cruz)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

De minha pele desprendem-se
bolhas de sabão que pelo vento
trafegam na direção dos seus olhos
irritando-os
e
eclode, pois,
no toque com seus cílios
o desenho de mim
que mostra a intensidade
com a qual
te pertenço.

(Marcos Cruz)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

NAS CANCELAS DA TERCEIRA PONTE

Eu sou quinhentos,
sou quinhentos-e-cinqüenta.

Eu sou quinhentos,
sou quinhentos-e-cinqüenta
espremidos no 507.

Eu sou quinhentos,
sou quinhentos-e-cinqüenta
reprimidos pela polícia.

Eu sou quinhentos,
sou mais de quinhentos
quando minha garganta se solta
sou três-mil-quinhentos-e-cinqüenta
fechando ruas e abrindo caminhos
exprimidos num grito de revolta.

(Marcos Cruz)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

BEIRA MAR

O branco da
onda se espalha
pela areia.

Olhos fixos para o
verdeazul
e entendo que o mar
está agitado porque faz março
no meu peito.

Tento, inutilmente,
pensar num verso
mas me lembro que
um ilustre português
já comparou o sal
das lágrimas com o sal
do mar;

e, em silêncio, me queixo
como se queixa um menino
a morte de seu passarinho.

(Marcos Cruz)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

EPITÁFIO

Meu verso é híbrido
meu verso é líquido
               é sangue.
Tristeza que dilata o riso
            que dói.

Meu verso é parnasianossimbolista comedido
é dadaíst'expressionista meio desequilibrado
meu verso é cubistaconcreto zulejado e rejuntado.
Meu verso é modernista
                           à pós.

Jaz aqui por isso mesmo
a nomenclatura do meu verso;
eia, pois, a forma do meu desejo.

(Marcos Cruz)